O mundo está em convulsão, o nosso país em grande processo de revolução política, e como se não bastasse, numa crise econômica. Sem falar da crise social e de valores que culminam em violência que já matou mais do que a soma das duas guerras mundiais. E quando falamos da crise ambiental, esta é sem precedentes, ufa!

Ao ver esse cenário assustador nos vem vários tipos de sentimentos, mas o primeiro que vem é o de indignação e em seguida outros sentimentos se manifestam como a raiva, etc. Esses sentimentos estão criando uma atmosfera que nos impele a gerar mais atrocidades e então vamos formando uma bola de neve que está nos levando a baixa estima; e o pior, começaram a alimentar o sentimento de termos vergonha de sermos brasileiros. Essa depressão coletiva precisa ser superada sem demora.

O que vemos nos veículos de comunicação é só o lado ruim da sociedade humana, de vez em quando se encerram os noticiários com algumas notícias boas, tipo morde e assopra. Comentar sobre a mídia e seu aprimoramento sempre soou censura e fica quase impossível esse diálogo, afinal se sonha com uma alta regulamentação, mas sem o senso de responsabilidade com o que se comunica, pouco avançamos. Não quero com isso dizer que não devemos ter notícias ruins, mas ter o cuidado de como ela é passada; não é porque a maioria é ruim, que o mundo seja só isso. Quando co-criamos o Prêmio Mídia da Paz, pude ver de perto a grande dificuldade dos profissionais de comunicação para mudarem esse padrão, e os que já mudaram são criticados pela maioria e pela máquina midiática que se alimenta do capital. Portanto, precisamos mudar o modelo de mídia existente se quisermos criar uma atmosfera de bons sentimentos.

Vem a pergunta: como gerar bons sentimentos com tanta coisa ruim acontecendo?

Esse é o ponto de mutação!

Quando temos um diagnóstico de uma doença perigosa, nós só temos duas opções: ou corremos atrás da cura ou nos entregamos a ela e a alimentamos. E lamentavelmente no meio de muitas patologias sociais, econômicas e ambientais, a maioria estamos escolhendo a opção de alimentar a patologia, com casos raros de busca de cura.

Pois bem, segundo os estudiosos de cultura de paz, a mesma indignação que gera um herói gera um criminoso ou déspota, tudo depende do que você faz com ela, a diferença é que a indignação do criminoso não constrói e a dos agentes de cultura de paz é uma indignação justa e construtiva. Portanto, ao ver algo que afeta o bem comum, o herói vai em direção à solução, arrisca sua vida e luta incansavelmente para mudar aquele padrão, e se faz com amor, desapego, sem querer beneficio pessoal, inevitavelmente ele muda a situação. Pode não ser divulgado na mídia, até porque ele não tem interesse em divulgar tais ações heroicas.

Esse é um herói silencioso, porém, o mundo mudou. Imagine se a Mídia alimentasse esses sentimentos de heroísmo? Lembrar-lhe-ia que também temos heróis grupais: grupos e organizações que fazem um belo trabalho para melhorar as condições do mundo de forma infatigável e muitas vezes sem dinheiro, mas com uma força transformadora, e existem milhares de pessoas e organizações no mundo que estão fazendo ações heroicas. Aliás o que seria do mundo se não fossem esses heróis ocultos?!

Gostaria de alertar que o mundo está cheio de críticos, como diz a escritora inglesa Alice Bailey: os críticos são os construtores da miséria. A crítica é importante e necessária, mas temos poucos cooperadores, aqueles que, ao ver algo de “errado”, se põem a trabalho para melhorar a situação. Ninguém quer ajuda de um crítico, mas todos querem a ajuda de um cooperador.

Portanto diante de qualquer problema que surja, ou suja, reflitamos: como posso melhorar esta situação? Como posso mobilizar outros para que, por compaixão, façamos a transformação necessária, como os médicos ao receberem um moribundo que fazem de tudo pela restauração de uma vida?

Estejamos atentos com as mensagens que circulam hoje nos diversos veículos de comunicação, inclusive nas mídias sociais: o que estamos disseminando traz bons sentimentos?

Já sabemos o que precisa ser feito no Brasil: Reforma Política e dos Políticos, mas feita pela sociedade civil organizada, não pelos políticos – eles não podem legislar em causa própria. Depois da Reforma Política e dos Políticos, podemos fazer as Reformas nas Politicas Públicas. Desculpem os poucos políticos sérios que temos, mas chegou a hora de fortalecer a sociedade civil organizada de qualidade, e darmos inicio ao movimento de esperança e renovação na situação vigente.

Comecemos a imaginar um país sustentável e pacífico, e nos preparar internamente para cooperar para o verdadeiro Brasil, pois a classe desonesta não nos representa; somos a maioria e empoderemos os íntegros e transparentes .
E que possa pulsar em nossos corações a seguinte estrofe do nosso hino, que, por sinal, é todo ele de rara beleza:

“Ouviram do Ipiranga às margens plácidas
De um povo heroico o brado retumbante
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.”

Como diz no parágrafo 454 da Ética Viva, no livro Mundo Ardente de 1934:

“Muitos estatutos legais foram inventados pela humanidade, mas o mais imutável ainda não foi pronunciado – o do Direito Cósmico. Pode-se ver frequentemente como esta lei se aplica e como ela guia a vida. Pode-se observar com frequência como algo impossível de acordo com as leis humanas, é, todavia cumprido. Com frequência, pode-se surpreender do quanto são inúteis todas as precauções humanas. É impossível não sentir que algo acima das razões terrestres guie as circunstâncias; neste algo estão à vontade, o quimismo cósmico e o imã mais imutável. A lei cósmica traz às pessoas destinadas para perto dos problemas mundiais. Às vezes elas próprias não podem explicar como detalhes inesperados se juntam. Mas elas sentem que seu coração arde. Assim ele fica, até certo ponto, ligado a algo inalterável. De acordo com esta lei imutável, pode-se passar por cima dos abismos mais perigosos. Tais plenos poderes podem ser chamados de Hierárquicos, mas quando acrescentamos a isto o quimismo dos luminares e os desígnios dos Mundos Distantes, então é possível definir tal direito como cósmico.”

Que tenhamos a coragem para viver essa linda estrofe e com indignação justa mudemos a situação do Brasil e do mundo pela cultura de paz com uma Ética Viva.

Paullo Santos – Nucleador de Política e Governança do Ecobairro