Marina Silva proferiu palestra no espaço Olimpo, em Feira de Santana, em 26-08, com o tema: Desafios do Desenvolvimento Sustentável no Brasil. O evento foi promovido pelos estudantes do 10º semestre do curso de Direito da Faculdade Nobre – FAN. O público compareceu, ocupando todo o espaço, e os valores arrecadados foram destinados à formatura da turma.

Os organizadores gentilmente convidaram o Ecobairro, que esteve presente através dos nucleadores de Ecologia, Educação, Saúde, Política e Comunicação. A palestrante ofereceu uma visão ampliada do conceito de sustentabilidade, descrevendo a crise civilizatória atual, que não é só do Brasil, e explanando essa crise sob vários aspectos. Apresentamos aqui uma pequena síntese da brilhante palestra de Marina Silva:

Dizemos que sustentabilidade é igual a um modelo sustentável. Estamos dizendo, então, que o modelo atual é insustentável em vários aspectos: político, econômico, cultural, social, ambiental, ético e estético. Desses, sem dúvida, o mais importante é o aspecto ambiental. O homem está destruindo a vida do Planeta, está destruindo nosso futuro comum e o futuro das próximas gerações. O homem está consumindo o Planeta de tal forma que o mesmo não terá tempo para se regenerar, entrando em colapso, e o homem poderá colapsar junto.

A biodiversidade brasileira é responsável por 50% do desenvolvimento mundial. No entanto, vê-se a todo instante, a presença da degradação ambiental, como desertificação, perda de recursos hídricos (o Brasil detém 50% de água doce no mundo), erosão do solo, contaminação do ar, problemas de mudanças climáticas. O uso de combustíveis fósseis, poderá, em breve, causar o aumento de 2 graus da temperatura do planeta.

Do ponto de vista da crise política – Segundo o livro Em Busca da Política (Bauman Zygmunt), a política está impotente, fazendo mais do mesmo, o tempo todo. É o atraso na política que está acabando com as conquistas sociais. Mas ainda há tempo para termos um sistema político que nos possibilite fazer mudanças.

Do ponto de vista da crise de valores – os valores estão na base do sistema ético que orienta todas as outras relações e é anterior ao bem comum de todos os indivíduos. A ética é rigorista e, não permite que se sacrifiquem os recursos de milhares de anos pelo lucro de algumas décadas, comprometendo os valores de todos.

Do ponto de vista da crise civilizatória – caracterizado, pelo que os físicos chamam de ponto de não retorno ou princípio do absurdo. É quando algo alcança o seu limite, ultrapassa o seu limite e se transforma no seu contrário, sem ter tempo ou como voltar atrás. Várias civilizações viveram a sua crise civilizatória e sucumbiram: egípcios, romanos, gregos, etc.

O Brasil possui uma vantagem em relação a essas civilizações, pois nós sabemos que estamos vivendo uma crise civilizatória e temos então a chance de não chegarmos ao nosso ponto de não retorno. Veja: quando um clínico se depara com um problema grave, ele pode ter uma atitude clínica ou cínica com seu paciente. É o caso de todos os seres humanos, nosso Planeta (no caso, nosso paciente) está doente e, podemos curá-lo ou tratá-lo com cinismo.

Crise na civilização significa que o modelo está estagnado. Então, como transitar para um novo modelo?

Temos várias dimensões a analisar:

Dimensão econômica – devemos transformar as vantagens competitivas em vantagens comparativas/ativas. Por exemplo, dos 70% da água existente no Planeta Terra, somente 0,3% são potáveis e utilizáveis pelo homem e o Brasil, possui 10% dessa fração de água. O Brasil é considerado uma potência ambiental, possuindo 60% das florestas do mundo e tem uma grande responsabilidade, então, sobre o clima mundial.

Dimensão social – Dois bilhões de pessoas vivem com menos de dois dólares por dia; não podemos dispor e transformar os bens naturais em bens materiais sem melhorar a vida de todas as pessoas.

Dimensão cultural – Se não formos capazes de ter um modelo de desenvolvimento que preserve a diversidade, temos um problema.

Dimensão ambiental – devemos usar com sabedoria os recursos naturais, sem comprometer os recursos que virão. É uma dimensão ética. Vários cientistas já comprovaram que o Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil seriam regiões desérticas, se não fossem as chuvas que se deslocam da Floresta Amazônica.

Dimensão estética – Os meios materiais são tangíveis, enquanto os meios imateriais são intangíveis, e como seres éticos devemos preservar os valores históricos.

Dimensão política – “é insustentável, eleger um representante político e, esperar que ele faça tudo para você”. Política “não se trata de fazer para as pessoas, mas de fazer com as pessoas”. Os cidadãos devem ser conscientes e sujeitos de suas próprias ações e os projetos políticos. Tem que haver uma integração de todos os pontos de vistas citados.

Dimensão ética – são os problemas de natureza ética. Os problemas de educação, pessoas sem moradia, crise elétrica, etc., não são problemas técnicos, são problemas éticos.

A mudança no Planeta tem que ser acelerada. Não é um problema para se resolver com o tempo e durar milhares de décadas. É o que se chama de “mutação”. O governo tem que fazer sua parte, as empresas têm que fazer sua parte, cada um tem que fazer sua parte…as responsabilidades são comuns, porém diferenciadas; quem pode fazer mais, tem que fazer mais, mas tudo com limite, mudando o sistema que aí está.

A sociedade tem tanta responsabilidade quanto o poder público, isto sim, é ser sustentável. Enquanto os brasileiros continuarem a pensar que o problema do Brasil é só do governo, o Brasil não vai mudar – quando o problema do Brasil virar um problema dos brasileiros, aí sim, o Brasil vai mudar!!!
O Planeta não suporta 7 bilhões de pessoas a ter coisas e mais coisas. O Planeta limita o seu desejo, pois o ideal do ser, vai ser invertido para o ideal do ter – não há limites para ser, mas há limites para ter.

A pergunta é: O que queremos ser como raça humana?

Queremos ser sustentáveis – no ponto de vista social, econômico, político, cultural, ambiental, ético e estético – queremos ter um ideal identificatório, ter expectativas. Hoje o sistema desqualifica o idealista, o sonhador; no entanto, “a matéria-prima mais concreta da vida de uma pessoa é o sonho” – “precisamos nos agigantar pelas decisões que tomamos, mas sendo gigantes pela natureza”, seguindo o exemplo dos povos tradicionais que vivem a milhares de décadas com práticas sustentáveis, possuindo uma dependência da natureza para a sua subsistência, uma íntima relação e um grande conhecimento na maneira de usá-la e manejá-la; ou seja, eles utilizam os recursos que a natureza os oferece de forma sustentável, já que sua sobrevivência depende diretamente dela.

Frases de Marina Silva no evento:

“A matéria-prima mais concreta da vida de uma pessoa é o sonho”
“Quando não temos com quem contar, contamos com qualquer um” – “ foi aí que eu descobri que qualquer um pode fazer mudanças”
“É insustentável eleger um representante político e esperar que ele faça tudo para você… “Política, não se trata de fazer para as pessoas, mas de fazer com as pessoas”
”Não há limites para ser, mas há limites para ter.”


Por Viva Sustentável