É gratificante perceber nas comunidades locais a presença forte do aspecto cultural através da literatura. O Viva Sustentável conversou com João Nascimento, baiano de São Sebastião do Passé e residente em Feira de Santana. Para João do Nascimento, que assina seus poemas como “um pensador brasileiro”, “sem educação você nunca será e nem estará entre os melhores.”

João Nascimento – um pensador brasileiro escreve sobre a vida, e seus poemas e crônicas provocam reflexões que vão das pequenas coisas diárias até as experiências mais profundas do ser humano.

HERÓIS

Heróis são aqueles que não medem barreira para dar um sorriso
Heróis são aqueles que procuram fazer da terra um paraíso
Heróis são aqueles que buscam beleza em coisas tão simples
num pedaço de pão dado de coração para um pobre mendigo
Não é brigar com milhões, enfrentar multidões com armas atrozes
Ser herói é sentir, também refletir o que as vezes dói.
Heróis são os que sabem que a felicidade não pode morrer
Heróis são os que choram , que cantam e lutam e sabem perder.

Ser herói é plantar uma flor, descobrir que o amor nasce nos corações,
É viver a vida como um sonho mas lindo e doces canções.
Ser herói é saber que no sorriso de uma criança,
Existe fé, amor e esperança, e este sorriso não pode morrer”

Heróis são aqueles que não acham palavras para ofender um amigo,
Heróis são aqueles que sabem beijar e abraçar os seus filhos.
Heróis são os que sabem que em tribos e raças, línguas ou nações
Não há diferença, mesmo sem crença ainda somos irmãos.
É não ter preconceito entre brancos e negros, pobres então.
É saber que o dinheiro, apesar de ser tudo, não é a solução.
Heróis são os que sabem gritar liberdade sem drogas nas mãos
Heróis são aqueles que dizem eu errei e pedem perdão.

 

Um pensador brasileiro
João do Nascimento

 

MESTRE, VOCÊ ESTÁ ERRADO!

Por que mestre? Mestre de quê? Mestre para quê? São tantos, que às vezes fico confuso, afinal, foram tantos erros e acertos, que eu ia aprendendo a cada instante, um pouquinho aqui, outro ali, até chegar ao título, Mestre. Será que valeu a pena realmente tanto esforço.

Enfrentar o medo, a ansiedade, o desafio. A vontade de vencer era grande, e a cada dia minha ansiedade crescia mais e mais. E o desejo de alcançar a perfeição era maior ainda, mas, enfim, descobri que não existem homens perfeitos e sim intenções perfeitas.

Mas como ensinar alguém a ser quando não sou? Como dizer para alguém faça quando não estou fazendo? Sou realmente capaz de carregar este título? “Mestre”, e fazer com que as pessoas venham a me reverenciar e seguir? Tenho dado verdadeiro exemplo para que alguém seja semelhante a mim?

São essas perguntas que faço, e cheguei à conclusão de que na vida sou simplesmente aluno, continuarei sempre errando e aprendendo, “difícil é encarar isso”, é saber que diante de uma pequena rosa tenho que me curvar e reconhecer que existe alguém superior a mim, e diante de obras tão pequenas e perfeitas tenho que admitir: estou errado. Errado por querer ser alguém que jamais conseguirei ser.

Afinal, quem sou eu? Responderei com muita franqueza. Sou um ser insatisfeito, vivendo sob o domínio e a vontade dos outros, subjugado às leis e éticas partidárias, usos e costumes democráticos, sem liberdade para viver da maneira que sonho. Quando quero voar, uma força gravitacional prende-me ao chão, não posso dizer à chuva para que não caia, nem ao sol que não brilhe, nem ao dia “demora-te”, nem à criança não cresça. Incapaz de pregar liberdade, pois vivo escravizado no mundo dos vícios, como beber, fumar e outros que dominam e predominam em meu ser.

Pergunto-me: “como irei ensinar meus filhos? Corrigi-los? Já que a cada instante estou sendo corrigido e disciplinado pelos meus próprios erros. Quando a própria natureza do meu corpo me diz: “Mestre, você está errado”. Falando em paz, promovendo violência; pregando amor, semeando desordem; exaltando-se, enquanto o coração está sangrando em prantos pelas desilusões dos muitos sonhos que não se realizou. Falando em vida quando está morrendo dentro de um orgulho mesquinho e indiferente para com os outros; procurando se enganar em meio a tantos amigos, grandes banquetes, sorrisos explícitos, quando no fundo, bem no fundo da sua alma, a razão com voz clara e nítida lhe diz “Mestre, você está errado.”

Difícil é encarar isso. É saber que sou carne e como tal apodrecerei e todo meu orgulho se acabará, saber que nasci do pó e para o pó voltarei. E o meu título de mestre quem herdará? Ou para aonde irei levá-lo? O que restará de mim? Apenas lembranças. E aqueles que me adoravam ou diziam me amar onde estarão?.

Enfim a realidade é uma só: os seres humanos vivem apenas o presente; o que passou, passou. O que é ensinado hoje, é combatido pela tecnologia de amanhã, e aquele que criou e nos ensinou a usar a máquina de escrever, hoje teria que aprender a usar o computador e assim por diante. O tempo apaga a memória dos homens. Sou criança, quero ser adulto; sou adulto, quero ser criança. E no dia em que aparecer alguém com obras maiores ou melhores do que as minhas, automaticamente serei esquecido, e tudo que criei passa a ser simplesmente peça de um museu para mostrar o quanto eu era atrasado e o quanto precisava ter aprendido.

Mas se eu fosse o melhor mestre em alfaiataria saberia vestir os carneiros com aquela lã tão fina? Ou quem sabe se eu fosse o melhor engenheiro, competiria eu com o João-de-barro, que nada estudou e constrói sua casa com tanta perfeição? Enfim, eu poderia ser o melhor mestre de toda a criação. Mas comO explicar a minha própria criação ou como disputar com aquele que me criou? Poderia eu voltar ao ventre da minha mãe e explicar como um corpo se forma dentro de outro corpo, recebendo os mesmos alimentos, as mesmas vitaminas, sendo que são dois corpos, duas almas, dois espíritos, unidos e sentindo as mesmas reações? Ou como explicaria eu de onde se extrai a matéria prima para a formação dos ossos, dos cabelos, das unhas dentro do corpo?

,É muito fácil ser levado a um palco em meio a multidões para ser aplaudido e receber o diplome de mestre, difícil é reconhecer que os grandes merecedores deste diploma são os carpinteiros que fazem as cadeiras, os pedreiros que constroem escolas e faculdades, os agricultores que plantam para que nos alimente.

Quem sabe um dia, os grandes mestres reconhecerão sua fragilidade, deixarão cair as máscaras da hipocrisia para aprender onde estão os verdadeiros valores humanos, e eu possa afirmar com certeza que não estão no palácio do planalto nem na fama dos grandes mitos da música, das novelas, não estão nos canhões da Rússia nem no dólar americano, e sim nas mãos das mulheres que catam latinhas nas ruas e vendem biscoito no mercado para honrar seu nome, sua dignidade. Está nas mãos do homem que procura, no lixo, alimento para os seus, mesmo sabendo que são simplesmente restos.

Os verdadeiros valores estão nas mãos calejadas que trabalham no sol, na chuva, que sofrem o preço de cada gota do suor derramado, e ao levar a sua mercadoria ao mercado para ser vendida é mais uma vez humilhado por aqueles que gritam bem alto: está caro! e pela necessidade é obrigado a vender por valores tão mínimos, e o dinheiro arrecadado dá simplesmente para a feira semanal, faltando o creme de cabelo para a esposa e o sapatinho para o filho.

Quem sabe um dia os grandes mestres da nossa sociedade, ao invés de ditar ordens e criar preconceitos, irão parar e ouvir a voz da sua própria consciência, que a cada instante grita bem alto: “Mestre, você está errado”? difícil é encarar isso!

Um pensador brasileiro
João do Nascimento

 

 

João do Nascimento conversa com o Viva Sustentável:

V.S: Onde você nasceu e qual a sua idade?
J.N. Nasci em São Sebastião do Passé e tenho 53 anos.

V.S: Você sempre escreve sobre a vida? Quais outros textos você já desenvolveu?
J.N: Sempre. Tenho mais de 100 poemas. Retratando muito assuntos. Mas em quase todos falo sobre a vida.

V.S: Pretende um dia publicar um livro?
J.N: Se tiver oportunidade, pode ser.

V.S: O que você acha que devemos fazer para nos aprimorar na vida?
J.N. É só aprendermos a ser alunos. E procurar aprender de tudo um pouco.

V.S: O que você tem a dizer sobre o problema ambiental que estamos vivendo?
J.N: A bíblia diz que a terra está contaminada pelo próprio homem. É só o homem querer mudar. Enquanto não quer, nada se pode fazer.

V.S: E sobre a economia, o que temos que aprender para melhor usar o dinheiro?
J.N: Não existe um plano perfeito. Porque a moeda não é universal. Cada um precisa aprender a usar seus recursos da melhor maneira possível. Colocando o chapéu onde o braço alcança.

V.S: E sobre a violência social que vivemos, o que você sugere para vivermos em paz?
J.N: Quanto maior a população , maiores são as necessidades. A violência de hoje é parte de uma colheita de uma enorme plantação que vem sendo feita há muito tempo. Com a semente de impunidade, racismo, má educação, falta de amor ao próximo etc. Mas, se plantarmos uma boa educação, justiça, amor, não-preconceito, nossos filhos e netos terão uma colheita melhor.

V.S: Agora conclua com uma mensagem para os jovens de hoje.
J.N: Quando eu era criança alguém me disse: “Nunca queira ser nada, mas no dia em que quiser ser, procure estar entre os melhores. E os melhores estão numa sala de aula. Por que sem educação você nunca será e nem estará entre os melhores.