Em plena semana após o segundo turno das eleições de 2018 em nosso Brasil, muitas reflexões começaram a surgir de como será o próximo governo no maior posto político da nação, a Presidência da República.

Uma eleição polarizada nos extremos da esquerda e direita, marcada pelo ódio: eu voto nele por que sou contra o outro e vice-versa, banhados por emoções irascíveis, ondas de fakenews, brigas entre eleitores nos diversos grupos sociais, inclusive em famílias, amizades desfeitas, violências eleitorais a ponto de um candidato ser esfaqueado, com o apelo único do possível combate a corrupção, como um único problema que motivou as decisões finais, ressuscitando o mote histórico de que “os fins justificam os meios”. Treze candidato(a)s apresentaram seus planos de governo e não houve ressonância em reflexões que pudessem olhar com serenidade quem poderia governar com uma nova proposta para os diversos problemas de nossa nação, mas os eleitores fizeram ouvidos moucos e apenas escutaram os que bradavam e as novas possibilidades ficaram a margem por conta de suas propostas silenciosas, mas transformadoras, não fizerem eco com a atual necessidade nacional: acabar a corrupção de qualquer jeito.

Não podemos também esquecer nessa curta análise que as eleições se expressaram com esses números:
1. Presidente eleito……………………………… 57.797.847 votos
2. Segundo candidato……………………………… 47.040.906 votos
3. *Alienáveis (abstenções, nulos, brancos)…………. 42.466.402 eleitores
* Termo jurídico dado pelo TSE a essa categoria de eleitores.
É de se notar que o candidato eleito não tem maioria dos eleitores ao seu lado, mas a maioria dos votos válidos, o que mostra mais uma fragilidade na democracia, que precisa ser aprimorada também nesse aspecto.

Meu objetivo aqui não é só olhar o processo eleitoral, mas fazer uma análise do regime que escolhemos, ditos por muitos que enquanto não inventarem algo melhor a democracia é o melhor sistema de governo. Gostaria de lembrar que o nosso modelo de democracia representativa é um modelo entre vários que existem, mas nessa democracia representativa a autoridade máxima é o voto, o qual poderá eleger um tirano, um oligarca, um monarca ou de vez em quando um democrata, esse último que expressa a vontade do povo são casos raros.

Democracia: o melhor regime?
Calma, antes que você pense que sou contra a democracia, gostaria apenas de lembrar que a democracia tão defendida por nossos ancestrais do saber como Sócrates na Grécia, levou seu próprio defensor a tomar a cicuta.

Mas é importante notar que este gigante do pensamento filosófico, o amável Sócrates, que marcou a história filosófica com os pré-socráticos e os socráticos – poderíamos até usar essa sigla: a.S. : antes de Sócrates e d.S.: depois de Sócrates – sem desconsiderar os que vieram depois e antes dele, ele precisa ser ouvido com muita clareza de pensamento.

Como hoje que escrevo esta reflexão é 02 de novembro, Dia de Finados, ou poderíamos entender como o dia do Culto aos Antepassados, imagino que eu possa estar sendo inspirado pelos que vieram antes de mim, para enxergar a construção do futuro, um futuro que precisa ser construído desde já, afinal colhemos o que plantamos.

Sócrates contestou os pré-socráticos, que se dedicavam a refletir sobre a natureza, a constituição do planeta e do cosmos, quando ele disse que o ser humano tinha problema demais, e que precisávamos dar atenção ao humano, inaugurando aí o que podemos entender sobre o humanismo, que de alguma forma nos levou ao antropocentrismo.

Como o ser humano passa a ser a referência e prioridade das discussões filosóficas, e todos deveriam criar e participar das necessidades humanas, não haveria outra opção naquela época, a não ser a DEMOCRACIA, o poder do povo, que por sinal naquela época era excludente: mulheres, escravos e estrangeiros não participavam das decisões.

Platão ao ver seu mestre ser assassinado pela política, se dedicara a reflexões filosóficas sobre esse tema, apesar de não ser um adepto da democracia.

O mundo das ideias começa a passar por crises, a ponto de Aristóteles, discípulo de Platão, mostrar que também o mundo da natureza contém metafísica o que o leva a resgatar a importância da natureza tão apreciada pelos pré-socráticos nas investigações filosóficas.

Podemos ver aí que a separação do homem da natureza é um fato que foi sustentado ao longo da história por grandes pensadores, tendo o antropocentrismo como sustentação, mas já abrindo as portas para reconciliação com a natureza.

A filósofa Hipátia pagou um preço alto por trazer reflexões de que a Terra não é o centro do Universo, assim com o magnânimo Galileu o comprovou com a invenção do telescópio, mas uma vez voltamos a natureza e a cosmologia em nossa história.


Esses movimentos foram cada vez mais solidificando a ciência, em que as experiências não poderiam deixar de serem ouvidas.

Dando um pulo agora para o momento contemporâneo, após as duas guerras mundiais, a humanidade deu inicio a um movimento global, em que seu foco deveria ser a preservação dos Direitos Humanos, marcado pela consolidação da sua Declaração que neste ano completa 70 anos, aliás me permita comentar o que diz o senso comum que Direitos Humanos são para proteger bandidos – alerto a estes reducionistas que se você ler essa Declaração com esse olhar, você corre o risco de chegar a conclusão de que você é um bandido, porque a proposta dos Direitos Humanos é muito maior, que é para garantir a educação, moradia, saúde para todos entre outros benefícios, portanto leia o documento no link https://www.unicef.org/brazil/pt/resources_10133.htm

Ainda como resultado da segunda guerra, a humanidade construiu a maior obra de engenharia política, a criação da Organização das Nações Unidas, fruto da Liga das Nações, um governo mundial que estimula o pensar global para as ações locais e a garantia da paz entre os povos.

Na década de setenta a humanidade se reúne através das Nações Unidas na Suécia, para informar que os governos precisam reformular suas políticas de desenvolvimento, porque a natureza estava correndo perigo, a nossa fonte de recursos. E se não mudássemos nosso estilo de vida, estaríamos correndo o risco de afetar a existência da humanidade. Esses avisos soaram como profecias malfazejas em que o exagero desse tema, mas assustaria do que nos transformaria e não tinha muito fundamento. Mas observe que isso vem de um apelo do pensar global, enxergando a Terra como um habitat comum a todos nós.

Os anos se passaram e o pensamento científico sinalizou o maior problema ambiental global que deveríamos enfrentar: as Mudanças Climáticas, como resultado da febre planetária, nossa temperatura aumentara e gerou mudanças no clima de forma desordenada. O que era um fenômeno natural, passou a ser acelerado pela humanidade, e como a natureza sempre busca a volta do equilíbrio, seus efeitos colaterais serão muitos difíceis a humanidade suportar e é necessário uma mudança sem demora, o que fez os representantes de 193 países, incluído o Brasil, a aprovarem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para serem implantados até 2030, conhecidos como a Agenda 2030, veja no link https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/

Esse desequilíbrio ambiental é fruto dos desequilíbrios sociais e econômicos que a humanidade resolveu experimentar ao longo da história, afinal de contas enxergávamos que poderíamos fazer o que queríamos com a natureza, e por sermos seres humanos, temos a capacidade racional que desafia tudo.

Agora o tema da natureza volta a pauta, e muitos que acordaram para isso estão gritando, como representantes da natureza silenciosa, que o modelo politico precisa mudar, essa tão sonhada democracia, criada pelo “povocentrismo”, esqueceu que moramos numa mesma casa e que todos os recursos materiais que precisamos vem da natureza.

Os ambientalistas e ecologistas maduros e inclusivos estão sendo convidados a pensarem num novo modelo de governança em que a natureza seja ouvida, nosso maior bem comum, de tal forma que pacifique a fúria da humanidade que ainda cultiva a violência entre si e contra os outros seres, a ponto de não saber conviver com as diferenças, gerando exclusão e desigualdade de todo tipo, seja econômica ou social, em que a ânsia pelo capital é maior do que pelo social e ambiental. Como antídoto a esse mal vislumbro o florescimento da ECOCRACIA, que já está em curso desde da I Conferência Mundial do Meio Ambiente realizado pelas Nações Unidas em 05 de junho de 1972 em Estocolmo da Suécia, o que ocasionou a criação do Dia Mundial do Meio Ambiente (05/06) e nasceu o primeiro órgão político global para tratar dessa questão, o PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

ECOCRACIA
Enquanto a Democracia é o poder do povo que governa (do grego demo = povo e cracia = poder), a ECOCRACIA seria o poder da casa.

O termo ECOLOGIA é parte das ciências biológicas, que estuda as relações dos seres vivos entre si e destes com o meio, em que ECO vem do greco OIKOS que significa casa e LOGIA da mesma origem grega que significa estudo, que se ocupa a estudar o habitat dos seres vivos e aí se alicerça a ECOCRACIA.

Se entendermos que moramos numa “casa comum”, o planeta Terra, em nosso sistema solar, e que fazemos parte de um ecossistema planetário e que todos se complementam e que a vida deve ser preservada em movimento rítmicos e harmônicos, essa visão de mundo mudará significativamente as políticas públicas, porque passaremos a arrumar o “oikos” incluindo todos os seres, não só os humanos num gesto de sensibilidade com toda a vida.

Quero convidar a partir de hoje os filósofos, cientistas, artistas, religiosos e todas as áreas do conhecimento para construirmos a ECOCRACIA em seus valores, diretrizes e método, afinal se a Democracia pode eleger qualquer representante, nos preparemos para elegermos um ecocrata, e quem sabe num futuro próximo quando a educação cumprir o seu papel de excelência, teremos a ECOCRACIA implantada como regime de governo de tal forma que o ser humano viverá em harmonia com a natureza para o surgimento e um outro modelo que nos unirá a todos e todas em uníssono com o cosmos e finalmente resgatarmos a tão sonhada harmonia universal, tão aprofundada por nosso ancestral filósofo Pitágoras.

Um documento importante que pode nos inspirar na construção da ECOCRACIA é a Carta da Terra, conheça no link http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/cartadaterra.pdf

Agradeço aos que vieram antes de nós com suas sabedorias incompreensíveis e aproveito para pedir perdão por não ouvi-los, porque nossa atitude de uma humanidade adolescente, motivados por rupturas, nos levará inevitavelmente a sermos uma humanidade madura, em que a liberdade será vivida com responsabilidade de tal forma que compreendamos e apliquemos a ECOCRACIA e que ela venha sem demora, movida pela cultura de paz.

Paullo Santos
Designer em Sustentabilidade e graduando em Filosofia
Co-editor do Viva Sustentável

Membro do Ecobairro Brasil

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