O Comitê de Sustentabilidade do Condomínio Viva + Papagaio em parceria com o Ecobairro Brasil realizaram na noite de sexta-feira, 31/08, dia em que encerra o Agosto Lilás – mês dedicado a conscientização pelo fim da violência contra a mulher, uma Roda de Conversa com a educadora Josi Souza e a psicóloga Mara Rocha com o tema VIOLÊNCIAS INVISÍVEIS CONTRA AS MULHERES. “A violência vem crescendo, e as sutis que podem levar a uma violência extrema, também. Vamos encontrar caminhos para pacificar as relações entre os gêneros. Este encontro é para mulheres e homens sensíveis a esta causa.” Assim foi o convite feito aos moradores do Condomínio Viva + Papagaio.

O Condomínio Viva + Papagaio tem em seus valores “na dimensão da Cultura de Paz: Amar e Respeitar a Vida; Rejeitar a Violência: praticando a tolerância para o diálogo.” Afinal o Condomínio assumiu a missão de “Criar um ambiente que contemple e valorize as necessidades ambientais, econômicas e sociais, através da cultura de paz, a fim de sermos uma comunidade harmônica, pacifica, solidária e sustentável para a presente e as futuras gerações.” Conheça mais no site http://vivamaispapagaio.eco.br/

Foi um encontro de rara beleza quando as facilitadoras apresentaram a visão histórica e da saúde sobre a violência contra a mulher. Coube a educadora feminista Josi Souza, professora de história, resgatar na história da humanidade a violência contra a mulher, em suas diversas fases da civilização até os tempos atuais, a qual intitulou sua contribuição com o tema: AS VIOLÊNCIAS INTERNALIZADAS E CONSENTIDAS: AS MÁSCARAS DO PATRIARCADO.

Já a Mara Rocha, que é psicóloga, transitou seus pensamentos pelo ambiente da saúde, apresentando inclusive casos de traumas psicológicos que ela trata em seu consultório, ocultando a identidade de seus pacientes por questões de ética profissional. Dessa forma as participantes puderam ver os efeitos colaterais na vida dessas mulheres, que vivem a base de medicamentos e terapias para curar a ferida em suas almas. Essas violências invisíveis trazem graves consequências nas mulheres, e os números desses casos são assustadores. Mara abordou também os conceitos de violência pela Organização Mundial de Saúde e intitulou sua contribuição com o tema: VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER.

Depois das exposições, abriu-se o diálogo com as mulheres e os poucos homens presentes, e muitas expuseram seu entendimento e suas histórias que de alguma forma trazem a dor da violência. Num clima descontraído e reflexivo, encerrou-se o evento com um maravilhoso lanche.

Se a violência física é pouco denunciada nas delegacias, porque muitas mulheres não querem se expor além de serem ameaçadas pelos homens, imaginem as violências invisíveis, que em muitas vezes são legitimadas por uma sociedade machista e violenta?

O Viva Sustentável aproveitou e fez algumas perguntas após o encontro às facilitadoras e às realizadoras.

Josi Souza – Profa. há 20 anos (rede pública e particular), formação Licenciatura em História / especialista em História da África e Cultura Afro-brasileira e em Gestão escolar. Feminista.

VS: Como você resumiria a história da violência contra a mulher?
Josi: A violência contra a mulher nasceu com o patriarcado que, ao legitimar a superioridade masculina, tornou igualmente legítimo o subjugo das mulheres, portanto é milenar. Existe uma cultura da violência internalizada, naturalizada e transmitida dentro do seio familiar.

VS: De que forma a educação poderá contribuir para mudar essa situação?
Josi: A educação, entendida como um processo que se dá no campo formal / institucional e, sobretudo, informal / relacional é a única forma de desconstruir esse padrão dominante e direcionar para uma nova mentalidade balizada pelo respeito e pela igualdade de gênero em todos os âmbitos da vida sócio-afetiva. Essa nova consciência deixará de tratar a mulher como propriedade e passará a vê-la como sujeito capaz de fazer suas escolhas sem que estas ameacem o direito a vida.

VS: O que a mulher pode fazer para se fortalecer evitando a violência contra ela?
Josi: Primeiramente, ter consciência de gênero e entender que faz parte de um grupo que está mais vulnerável. Buscar o esclarecimento acerca do que constitui violência, suas faces e contextos, pois muitas não compreendem e internalizam a violência. Não romantizar as relações afetivas ao ponto de ver um agressor em potencial como o homem ideal. Observar as relações deste novo parceiro com outras mulheres ao entorno dele porque ele não pode ser ótimo apenas para ela. (É bom filho, irmão, chefe, trata a ex com respeito?). E, ao menor sinal de violência, dar um basta, pois o agressor continuará sendo agressor.

VS: O que você sugere aos homens para que eles possam contribuir nessa causa?
Josi: Os homens precisam se preparar para esta nova mulher, herdeira e beneficiária das conquistas feministas, entendê-la e respeitá-la. Estar atento aos debates, fazer leituras que possam ampliar sua compreensão sobre o sujeito mulher e não o objeto mulher, como historicamente foi feito. Se é muito recorrente ouvirmos que: ” não se fazem mulheres como antigamente”, homens ainda fazem. Esse é o problema.

Mara Rocha – Psicóloga comportamental e sócia do Instituto e Clínica Equilibri. Editora do quadro de Psicologia Comportamental, no programa “Sociedade e Você”, na Rádio FM Sociedade News.

VS: Como a saúde define a violência contra a mulher?
Mara: Para a Org. Mundial de Saúde, o termo violência é definido como o uso de força física ou poder, em ameaça ou na prática, que resulte ou possa resultar em sofrimento, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudicado ou privação.

VS: Quais os casos mais comuns de violência contra a mulher que surge em seu consultório de psicologia?
Mara: No consultório, recebemos pacientes vítimas de diversos tipos de violências, principalmente a violência Psicológica e a violência patrimonial, pois essas são muito comuns por serem sutis, e nem sempre a vítima percebe que está em uma relação adoecedora. Essa percepção só acontece quando os sintomas psicológicos e psicossomáticos começam a aparecer, daí elas buscam ajuda.

VS: Em linhas gerais como tratar traumas psicológicos nas mulheres vítimas de violência?
Mara: A depender do nível de adoecimento, decorrente da violência sofrida, essa paciente geralmente é encaminhada para uma avaliação psiquiátrica e acompanhamento psicológico.

VS: O que você sugere aos homens para que eles não promovam violências invisíveis contra as mulheres?
Mara: Que busquem conhecimento sobre o que caracteriza os diversos tipos de violências. Pois muitas vezes, eles reproduzem o que aprendeu nas suas casas, na sua comunidade sem se dá conta que isso é um abuso, uma violência. Muitas vezes, certos comportamentos são entendido de maneira errônea, como demonstração de cuidado e proteção, porque ama essa mulher. Quando na verdade, esses comportamentos são agressivos e adoecedores para a relação e para o casal.

E as síndicas Mithelle Fardin e Estefânia Satiro – ambas com licenciatura em Matemática, realizadoras do evento, que unidas administram o Condomínio Viva + Papagaio, também responderam algumas perguntas para concluir.

VS: O que motivou a realização desse importante evento no condomínio?
Síndicas: Diante das notícias nas redes sociais e acontecimentos na nossa comunidade nos fez refletir sobre o assunto e a partir daí sentimos a necessidade de levar essa discussão e reflexão pra nossa comunidade, no caso, nosso condomínio. É preciso falar, debater, prevenir e não aceitar essa violência.

VS: Como foi o evento?
Síndicas: Bastante construtivo e informativo, pra combater qualquer violência é preciso ter conhecimento de causa. Aprendemos muito. Observamos que o espaço pra debate ficou curto, e na próxima, poderíamos nesse momento colocar as cadeiras em círculo.

VS: O que vocês pretendem fazer a partir de agora sobre essa questão no Condomínio?
Síndicas: Ainda estamos refletindo.

O Ecobairro Brasil ficou muito feliz com a realização conjunta do evento, até porque para o Ecobairro só é possível uma cidade sustentável se for pacífica. Se quisermos uma sociedade que promova uma cultura de paz, homens e mulheres deverão dar as mãos e transformar seu convívio em complementariedade sem violência e superação conjunta dos desafios, para que possam trazer ao mundo os filhos da paz. Assinala Paullo Santos, Coordenador do Ecobairro Brasil em Feira de Santana.

Por: Redação do Viva Sustentável