Se a COVID-19 (doença causada pelo coronavírus) é uma patologia que de epidemia se transformou numa pandemia, ela se tornou uma doença planetária. Os profissionais de saúde que já estão pesquisando sobre Saúde Planetária, ou seja, que o Planeta Terra é um organismo vivo que transita pelo espaço sideral e que todos os seres são células desse belo corpo, um ecossistema intrincado, no qual um depende do outro, ou melhor, se complementam para existirem, tudo está interligado. Essa visão moderna é tão profunda que é ratificada pela Covid-19, uma versão mais atualizada do coronavírus em escala global.

É bom lembrar que a Agenda 2030, aprovada por 193 países em 2015 na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, tem um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis, de número 3, dedicado a Saúde e Bem Estar.

Ainda no campo da saúde, é bom pensar nas diversas medicinas do mundo e suas múltiplas visões, a exemplo da Medicina Tradicional Chinesa, que enxerga as doenças como um sinal do organismo, que está nos avisando que precisamos encontrar nosso equilíbrio, inicialmente entre Yin e Yang (masculino e feminino) e também com os elementos da natureza, mostrando que há uma estreita ligação entre o dentro e o fora, entre o ser humano e o meio ambiente, entre o céu e a Terra e assim sucessivamente.

Saindo do oriente e vindo para o ocidente, podemos ver as reflexões contemporâneas mostradas pela psicologia na qual é demonstrada “A doença como caminho”, em que toda enfermidade é um convite para uma transformação do ser.
Finalizo essas comparações com os paradoxos da Alopatia com a Homeopatia, em que a primeira “cura” pelos diferentes, enquanto a segunda “cura” pelos semelhantes, nos mostrando que até nas polaridades terapêuticas é possível a “cura”.

Com essa reflexão inicial sobre a visão de uma saúde planetária e de visões de oriente com o ocidente, podemos dar início a esta pergunta: A COVID-19 ESTÁ NOS CONVIDANDO A QUE?

Vamos observar agora o que é solicitado para evitarmos a proliferação do vírus: o distanciamento e o isolamento social, o que nos fez voltar para casa. É um vírus que atinge os pulmões, levando a óbito os que têm algumas fragilidades de saúde e a faixa etária mais atingida é a partir dos 60 anos, lembrando que há mortes com pessoas mais jovens.

Portanto podemos começar a pensar nos efeitos provocativos de mudanças em nosso ecossistema social:

1. Ecologia
O apelo da maior crise ambiental do mundo, que são as mudanças climáticas, provocada pelo aumento da emissão de gases de efeito estufa, gerando aumento da temperatura global e acelerando as mudanças climáticas, que são efeitos de nossos desequilíbrios sociais e econômicos nos convida a mudar hábitos e estilos de vida, te tal forma que cada ação nossa deva estar em harmonia com a natureza. Com o isolamento e distanciamento social que deflagrou uma quarentena em boa parte do planeta, a NASA já pôde fotografar os efeitos benéficos na atmosfera do planeta, fruto da redução de consumo e de uma vida “fast”.

2. Economia
O dinheiro armazenado no mundo para especulação e que regula a economia planetária terá que ser dirigido para a preservação da vida, e para o fortalecimento e manutenção do primeiro núcleo social: a família. O grito “fique em casa” é maior que saia para comprar. Ainda, nessa perspectiva, começou-se a ver a importância do “home-office”, mostrando que é possível aliar atividades domésticas com as profissionais. Aquela guerra entre homem e mulher no campo profissional e doméstico pode ser resolvida frente a frente, debaixo do mesmo teto. Que com isso nasça a cooperação em vez de competição. Sinais de uma economia sustentável e solidária começam a ser uma luz no final do túnel.

3. Educação
A rede formal de ensino tenta conciliar a educação formal dentro do ambiente doméstico, em que o diálogo entre a casa e escola irá aumentar. Afinal a futura geração não pode ficar só nas redes sociais aguardando a quarentena passar, mas podemos ter uma educação integral sem ser só na escola.

4. Espiritualidade
O convite para orarmos em casa e ir para “dentro do nosso quarto” para conversarmos com o Supremo, começa a ser compreendido. É necessário buscar a espiritualidade dentro e depois levar para fora com gestos de paz. As religiões começam a ser convocadas para uma revisão em seus métodos.

5. Comunicação
Com os avanços das redes sociais e a democratização da informação, cresceu-se muito o isolamento e distanciamento social antes da Covid-19. Quantos se aproximaram dos distantes e se distanciaram dos próximos por conta do encantador “celular”? As informações sobre a pandemia chegam em tempo real, e o pânico toma conta, e é necessário colocar em pauta o que devemos mudar coletivamente para termos hábitos e estilos de vida sustentáveis e que aumentem nossa imunidade.

6. Cultura
Estamos conhecendo o mundo e como cada povo está se comportando diante dos casos da pandemia. Num convite de ver as múltiplas culturas, mas buscando nossa identidade cultural. Agora chegou o momento de ler mais, escrever, desenvolver nossas habilidades artísticas, para poetizarmos a vida.

7. Saúde
É hora de sabermos sobre tudo que promove a saúde e aumenta nossa imunidade. Os planos de “doenças” serão transformados em práticas diárias de prevenção e saber que a saúde começa dentro de casa.

8. Política
Deixei por último a política, esta que está agonizando por falta de ética, onde a maioria se corrompeu em diversos níveis, não só a corrupção oriunda de desvios de recursos, mas a corrupção mais profunda, que está na origem da palavra (cor=coração, rup=ruptura e ação=atitudes, ou seja, ruptura da ação do coração) que é identificada com aqueles que não trabalham pelo bem comum, que alimentam os partidarismos. Um governo ético trabalha para o bem de todos, os pobres, a classe média e os ricos, buscando incessantemente a erradicação das desigualdades que nos levam a antropofagia. Esquerda, direita e centro começam a entender que a vida é mais importante, um bem comum que deve ser o foco de todas as políticas e ajustamento das divergências, provocando uma união para esse exercício inicial de cidadania planetária, em que países, estados e prefeituras deverão se unir para erradicarmos essa pandemia. A população começou a enxergar quem ama o dinheiro e quem ama a vida nas decisões políticas. Uma “ecocracia” começa a surgir no meio da democracia, e os políticos serão escolhidos por pessoas que amam a vida, sinais de mudanças significativas para que a política resgate seu verdadeiro papel de ser um exemplo ético pelo bem comum.

Depois dessa viagem nas diversas dimensões da vida, volte a nossa primeira casa, nosso corpo, a casa de nossa alma e diante desse cenário mergulhe no mais profundo do seu ser e se pergunte: A COVID-19 ESTÁ ME CONVIDANDO A MUDAR O QUÊ? Se as respostas que você encontrar lhe trouxer alegria interior, é sinal que seu ser começou a ter diálogo com seu corpo e deu início ao que o isolamento nos convida: estar consigo mesmo e ouvindo seu ser para que possamos agir de forma amorosa com todos, sem perder nosso centro: o CORAÇÃO, que é abraçado pelo nosso PULMÃO, e numa respiração harmônica voltarmos a cantar.

Este artigo é um convite para continuarmos a reflexão: A COVID-19 ESTÁ NOS CONVIDANDO A QUÊ? Se mudarmos nossos hábitos e estilos de vida, vamos agradecer a esta dor para o nascimento de uma nova humanidade dentro do ecossistema planetário e entender que o mote “a doença como caminho” é uma grande oportunidade de transformação.

Por: Paullo Santos – Educador, Consultor em Desenvolvimento Sustentável, Vice-Presidente do Instituto Ecobairro Brasil, graduando em Filosofia – UEFS e co-editor do Portal Viva Sustentável.