ConceiçãoA professora Conceição Oliveira Lopes, diretora do Colégio Estadual Teotônio Vilela, fala sobre as perspectivas da educação atual.

  

CP: O que precisa mudar no sistema de educação?

 

Conceição – EDUCADORA: Muitos projetos que estimulam o potencial artístico e científico do aluno bem como programas que favorecem o acesso às universidades têm sido uma ótima iniciativa. Mas muita coisa precisa mudar, a começar pelas políticas educacionais que deveriam ser formuladas a partir da realidade circundante. E quem conhece essa realidade é quem está na base do processo: dirigentes escolares e professores, que convivem dia a dia com as problemáticas da educação. E aqui cito três pontos cruciais:

  1. É preciso política de fortalecimento da educação infantil e ensino fundamental I, pois os alunos chegam ao 6º ano cada vez mais desprovidos de competências leitoras, escritoras e raciocínio lógico. Isso gera uma desigualdade imensa em relação aos alunos provenientes da rede particular, refletindo mais tarde nas oportunidades de emprego e acesso aos cursos universitários… (Muitos, quando conseguem esse acesso, sentem dificuldade em acompanhar o processo de conhecimento desse universo acadêmico…)
  2. O excesso de trabalho burocrático-administrativo é outro aspecto a ser discutido. A secretaria de educação, hoje, delega tudo às escolas, sem um número satisfatório de pessoal para atender às demandas. A escola é comparada ao modelo empresarial: administra recursos financeiros, administra pessoal, administra o pedagógico, sem o devido suporte profissional para lidar no dia a dia com essas questões. Imagine uma empresa privada, cada qual no seu setor: o gerente do departamento financeiro, o gerente de recursos humanos, o encarregado do almoxarifado, o gerente de vendas, etc. O objetivo da empresa é o lucro, o da escola é a aprendizagem, é a formação integral do ser humano, mas ela, a escola, não tem conseguido cumprir o seu papel com qualidade. As atribuições técnico-burocráticas para poucas mãos executarem aliadas à indisciplina dos adolescentes sufocam o dia-a-dia dos gestores escolares, transformando-os em técnicos de gabinete ou em delegados / psicólogos escolares.
  3. É preciso valorizar os trabalhadores da educação: salários dignos, direitos trabalhistas respeitados, motivando todos que atuam no contexto escolar – porteiros, vigilantes, merendeiras, serviços gerais, assistentes administrativos, etc.

Falar de mudança no sistema educacional suscita um longo debate: escola de qualidade perto de casa (nossas crianças percorrem longos e perigosos caminhos até a escola), melhor infra-estrutura, valorização e formação do professor, currículo adequado aos tempos humanos, pois muito se teoriza, mas pouco se põe em prática, um ensino mais dinâmico centrado nas transformações sociais e no combate ao consumo e capitalismo selvagem que gera o crime e a proliferação da droga. Enfim, é uma discussão que pode não caber nas páginas desse jornal…

 

 

CP: Como você vê a Educação para o Desenvolvimento Sustentável e Cultura de Paz?

 

Conceição – EDUCADORA: Acredito que é um caminho para tentarmos diminuir a violência intra e extra escolar. São muitas questões para a escola dar conta, mas precisamos fazer um trabalho de esforço conjunto voltado para a educação das emoções, uma educação preocupada com a formação de indivíduos sustentáveis, capazes de administrar suas frustrações, decepções e de imbuir-se de  um espírito cooperativo e solidário.

 

 

CP: O que mudou no CETV, o Colégio que você dirige, depois do acolhimento ao  Ecobairro e do nascimento conjunto do Projeto Semeando…?

 

Conceição – EDUCADORA: O Ecobairro foi a parceria de que precisávamos para fortalecer nosso desejo de uma escola pacífica e sustentável. Juntos, pretendemos dar continuidade as ações iniciadas em setembro de 2013 e que já mudaram a rotina da escola em alguns aspectos: a formação de comitês de sala formados por alunos e professor para mediar conflitos intra classe. Muitos professores assimilaram a idéia do projeto e passaram a resolver em conjunto com os alunos os problemas existentes na sala, antes quase sempre encaminhados à direção; o projeto trouxe também a parceria com estudantes de psicologia da FTC, para atender alunos com necessidades de acompanhamento; os alunos participaram de assembléias para, de forma democrática, sugerir mudanças para a escola pensando em sua rotina  quanto à cultura de paz e à consciência ambiental. E aí, percebemos maior sentimento de pertencimento à escola, uma vez demonstrado o cuidado com esse ambiente através de iniciativas de paisagismo na escola, envolvimento na arte, preservação do patrimônio…

CP: Se você assumisse o cargo de maior poder na Educação do Brasil, o que você faria?

 

Conceição – EDUCADORA: Acho que algumas coisas respondi na primeira pergunta. Mas gostaria de acrescentar outras. Primeiro, o Brasil tem uma dívida social muito grande com as crianças carentes. A distorção idade-série é imensa entre os jovens brasileiros. São meninos e meninas que entram tardiamente na escola ou não foram alfabetizados na idade certa, são arrimos de família e, desmotivados, vêem a escola como algo distante, muito distante de suas realidades e expectativas. Muitos jovens interrompem os estudos para trabalhar e ajudar no sustento da família, quase sempre sem a figura do pai, ou simplesmente só a figura da avó como referência familiar. Basta ver os números da base da pirâmide, o ensino fundamental, e de quantos alunos chegam na ponta, o ensino médio. E aí vemos políticas que precarizam o ensino, e como resultado, o máximo que eles conseguem é o subemprego.

O Programa Bolsa Família tem sido pensado como uma política pública para amenizar esse prejuízo quanto aos alunos fora da escola, mas não resolve, porque muitas mães não compreendem o valor da escola e só aparecem quando a bolsa família é ameaçada.

Com tudo isso quero chegar na necessidade de correção urgente de alunos em seu tempo certo na escola, com qualidade no ensino. Precisaria de justiça social, para que os pais priorizassem o estudo dos filhos, além de incentivo nos meios de comunicação  e em todo círculo comunitário sobre a importância da educação, a fim de estimular os pais a  acompanharem e cobrarem qualidade no processo educativo de seus filhos…

Segundo: O nosso atual modelo de educação é um modelo industrial, que parece ser projetado para não estimular o pensamento criativo. Professores passam boa parte do tempo planejando e ensinando para a prova, obedecendo a um currículo rígido, fragmentado e depois passam outra parte do seu apertado tempo dando notas muito abaixo do esperado. Parece que o sistema é feito para não dar tempo de pensar e sim de adestrar o ser humano para oportunidades que poucos conseguem alcançar. Quando saímos da escola, nos perguntamos: do que aprendi, o que ficou?

Os estudantes, claro, precisam de uma base sólida (como me refiro na primeira pergunta) para conseguir produzir conhecimentos relevantes. Penso que a educação básica devia seguir um pouco do formato do ensino superior: professores com mais tempo livre para estudar e desenvolver um ensino pela pesquisa desde cedo com nossos alunos, tempo para orientar, para pensar, pois o novo ensino precisa estar voltado para a intervenção social, para a problematização de questões relevantes com o desafio de se propor soluções. Nossas escolas deveriam ser ambientes para a  experimentação segura, onde os erros fossem permitidos como tentativas de acerto. O ensino precisa dar tempo e espaço para a criatividade já existente em cada um de nós – e de fazê-la crescer, naqueles poucos que contribuirão para mudar o mundo, ao nível da genialidade, como afirma Salman Khan.

 

Sou favorável também à criação de uma espécie de gratificação salarial ao professor ou um outro trabalhador da educação que faz a diferença com ideias criativas, inovadoras, atuando com compromisso na aprendizagem significativa do aluno.

 

Outro aspecto importante: não adianta equipar escolas com laboratórios de informática, laboratórios de ciências, bibliotecas, sem profissional para abrir esses espaços. Deveria haver monitores bolsistas, estudantes universitários ou da própria escola, para dinamizar o acesso a esses espaços. Sem uma pessoa qualificada para dar suporte ao professor, até o vigilante chegar para abrir a sala de informática, por exemplo, todos os computadores serem ligados e o professor acomodar os alunos, o tempo da aula já passou.

Prédios arquitetônicos, equipamentos tecnológicos, sistemas inovadores, tudo isso é maravilhoso, mas nada adianta se não houver investimento no ser humano – sua formação e valorização profissional e tempo para usar o potencial criativo.

 

Cito aqui apenas alguns exemplos de mudanças necessárias, só para começo de conversa…

 

CP: O que precisa para que os Educadores façam a mudança em nosso país para a valorização da Educação?

 

Conceição – EDUCADORA: valorizarem-se como intelectuais importantes no cenário da educação, ressignificarem o ensino, no sentido de levar o aluno à crítica social, à participação política e à prática interventiva, além de ser preciso o apoio dos pais e da sociedade como aliados em prol de uma educação sustentável.

 

 

CP:  que você  atribui a violência intra-escolar?

 

Conceição – EDUCADORA: Atribuo a vários aspectos: influência negativa da mídia (os meios de comunicação não mostram as coisas positivas que muitos jovens fazem, além de disseminar a inversão de valores ); a falta de estrutura familiar, a permissividade excessiva, a falta de inteligência emocional, de educação das emoções, entre outros….

 

 

CP: Como você enxerga esse Movimento que nasceu em sua escola e que agora já contagia outras para uma educação sustentável e pacífica em nossa cidade?

 

Conceição – EDUCADORA: Vejo como um caminho que encoraja a mudança de atitudes, de valores…  Chega de “entupir” nossos alunos com conteúdos pra esgotar todo o livro didático em nome dos exames de admissão e depois ele se tornar um insensível com o outro, com a natureza, com os princípios éticos… um “predador social”. Um aluno que preserva uma flor no jardim, não será capaz de espancar o ser humano. Precisamos de pessoas éticas, honestas, solidárias, autônomas, sustentáveis em suas emoções, conscientes de que o melhor conteúdo a ser aprendido é aquele que pode ajudar na construção de um país com mais justiça social e oportunidade para muitos.

Esse novo modelo de educação é necessário, pois acima de tudo se propõe a formar seres humanos sustentáveis.

CP: Qual a mensagem que você gostaria de enviar para os estudantes para essa nova educação?

Conceição – EDUCADORA: Gostaria de mandar uma mensagem não só para os estudantes, mas para os pais também…

Penso que é preciso que todos ajudem a fortalecer a escola pública que temos, somos nós que temos que dar valor a escola que escolhemos estudar ou colocar nossos filhos. Não basta criticar, é preciso participar, conhecer seu funcionamento e propor caminhos para sua melhoria e se sentir pertencente a essa escola. Vejo pais que pouco participam da escola procurarem rádios para fazerem comentários maldosos sem procurar a escola e saber o que está acontecendo, ou falam de forma negativa da escola na frente do filho, esse pai está contribuindo para que o estudante desvalorize a escola. A coisa mais importante que acho é o sentimento de pertencimento a esse lugar – sua escola. É preciso que o estudante se interesse pelo saber,  seja protagonista do conhecimento e cobre qualidade dessa educação, que se quer alegre, viva, dinâmica, onde a criança, o adolescente, o jovem, o adulto se sinta construtor de sua história e da história de uma nova educação: sustentável e pacífica.